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TRILOGIA “FORTUNA DOMINATRIX MUNDI”: JOGOS DE GUERRA
 
(uma batalha épica pela felicidade e pela conquista do coração)
 
 

PRÓLOGO – Jogo da Vida (Reino da Fortuna).
 
Para os deuses
Nossa vida é um jogo
(sempre está em jogo);
Um grande evento lúdico
Em que mortais divertem
A imortais como peças
No grande tabuleiro da vida! 
 
Tudo sempre
É um jogo de deuses:
Os jogos de sedução,
O jogo do amor,
Os jogos de guerra,
O jogo do Destino,
O jogo da felicidade...
Sim, minha felicidade está em jogo,
Pois brincam com o esquife de gelo
Que conserva meu peito!
 
Tudo sempre é um jogo,
E nos jogos reina a Fortuna!
Em conluio com as Parcas,
Imparcial e aleatória deixou de ser
Essa ambígua deusa;
A venda tirou e para mim se revelou
– nunca passou de uma deusa
de falsas esperanças, uma farsa!
 
Por muito tempo vi as Parcas
Brincando com minha vida
Em jogos de azar,
Apostando meu quinhão – agora retido
e em altos cacifes de fichas convertido –
Por pura crueldade e capricho,
Para seus ledos jogos de cartas;
E esperava desesperado
Pelos favores da Fortuna,
Que sempre me era desfavorável!
 
Esconde-se por trás das Parcas
E decide o destino de todos,
Deixando para a Sorteadora a má fama,
Mas também tem seu quinhão de infâmia!
 
Quem é mais culpada,
Aquela que executa
Ou a que encomenda a desgraça?
 
Se as Parcas são as rainhas
Que comandam o destino do mundo,
É a Fortuna a grande cortesã que manipula,
Que flerta com todos e a todos seduz,
Como as famosas cortesãs
Que muitas vezes eram tão poderosas
Quanto reis e rainhas,
Como foi Madame de Pompadour!
 
Fortuna é a mestra do mundo,
Dominadora e manipuladora,
Sádica e sedutora,
Que alterna os prazeres da alcova
Com os martírios da masmorra!
 
Presos à sádica Roda da Fortuna,
Desejamos os beijos que fazem subir
E tememos o látego que faz descer!
 
Entre mordidas e beijos,
Entre arranhões e afagos,
Gemem todos em seus braços,
Sempre se equilibrando
Sobre a linha tênue
Entre a dor e o prazer,
Entre a excitação e o desespero
– eis a vida mundana!
 
Diferente das Musas,
É uma ninfa dos oceanos
Que inspira um misto
De desejo e temor,
Pois como um vício,
Leva da euforia à depressão!
 
É a perigosa oceânide
Que oscila como as vagas,
Que gira o timão caprichosamente,
Guiando-nos para terra firme
Ou para terríveis naufrágios!
 
Encontrava-me náufrago
Nas águas marinhas
Do grande Jogo da Vida,
Quando em uma guinada
Virei o jogo a meu favor,
Valendo-me de uma cartada
– um trunfo na manga!
 
Entrou em jogo a Fortuna com seu timão
E virou o jogo novamente contra mim
Ao incitar a Décima, a irmã do meio,
Das três Parcas a mais vingativa,
Que passou a me odiar por vencer
O irmão em seu próprio jogo
– o Destino joga sujo, mas sabe perder;
é bem menos vingativo e odioso!
 
Não é prudente aborrecer as Parcas
Ou tentar enganá-las com trapaças,
Pois podem a qualquer momento
Desfiar a trama já tecida e tecer
Um destino ainda mais horrendo!
 
Jamais me permitiriam mudar
O destino que teceram para mim;
E jamais me permitiriam sair
Impune de tamanha afronta!
 
Para piorar a situação,
Fui ainda mais imprudente:
Os deuses antigos abandonei
Com seus jogos de azar e seus caprichos,
Ocupando-me apenas da família
E dos afazeres dos homens
– ao abandonar até a prudência,
à Décima aborreci com insolência!
 
Vingativa como Juno,
Exagerou na punição
E reuniu um exército tenebroso,
Composto por alguns
Filhos e filhas da Noite,
Além de monstros do Érebo,
Como as Cadelas de Plutão,
Mas o pior foi buscar com fúria
No Tártaro: as temidas Fúrias!
 
O mesmo ódio por mim
Não nutrem suas irmãs,
Mas em divina e fraternal cumplicidade,
Decidem apoiá-la;
E com todos joga a Fortuna,
Que ri – se diverte com a pugna!
 
Essas foram as vis causas
Do odioso conflito que me levou
Aos terríveis jogos de guerra!
 
 
CAPÍTULO I – O Levante (Um Jogo de Raciocínio).
 
Sobrevivi heroicamente
Durante os longos anos de guerra
Contra a Fortuna e contra as Parcas
Em seu território acidentado e traiçoeiro,
Na arte da guerra me habilitando
– tenho sido um bom e disciplinado
estrategista militar!
 
Uma virada intencionando,
O local e o jogo mudei,
Trazendo o inimigo para lutar
Em meu próprio terreno
Com jogos de guerra
Que exclusivamente usam
O raciocínio e a estratégia,
Pois com os favores da Fortuna
Sei que não posso contar,
E além dos seus domínios
Esse tipo de jogo se encontra
– usarei os dons de Minerva!
 
Meu destino tentei controlar
Entrando em guerra apenas
Contra as terríveis Parcas,
Minhas inimigas declaradas,
Sem a interferência da Fortuna,
Que curiosa e alegre
Sempre rondou o jogo,
Com ar de inocência,
Mas uma inimiga perigosa e sorrateira
Tem se revelado – astuta e traiçoeira!
 
As Senhoras do Destino
Se creem senhoras do meu,
Senhoras da minha vida,
E agora são a esperança da Fortuna,
Que não poderá determinar
Os resultados do jogo e não aceitará
Ser ignorada na contenda!
 
Nesse jogo onde usarei a razão
Na tentativa de preservar o coração,
São as Parcas colocadas em jogo
Como meras peças da Fortuna
– suas verdadeiras posições!
 
Tendo minha vida diante de mim
Como um grande tabuleiro
Onde se alternam
As casas da dita e da desdita,
Em uma partida de Xadrez
Tentarei decidi-la!  
 
Como abandonei os deuses,
Nenhum deles lutará ao meu lado;
Entre minhas peças conto apenas
Com nobres voluntários mortais
E alguns seres mitológicos benfazejos!
 
Em grande desvantagem me vendo
E cansado dos infindáveis caprichos
Dos poderosos deuses antigos,
Ao Deus cristão recorri em aflita oração,
E na esperança de ter sido ouvido,
Respirei fundo e posicionei as peças!
 
As três irmãs ao longe vi,
Mais uma vez
Lugubremente trajadas,
Como um sinal macabro
De suas cruéis intenções
– comigo sempre é assim!
 
Vi seu horrendo exército
Pagão de peças trajadas
De modo lúgubre e armadas!
 
Minhas peças são puras
E usam trajes alvos
– a luz sempre é alvo
das trevas, que a ela sucumbem!
 
Nas peças principais
As Parcas e suas comparsas vi,
Usando todas as outras como peões
– manipuladoras sempre vis!
 
Coberta com uma mortalha e véu negros,
A adversária Dama horrenda vi,
E nela reconheci a face inflexível da Morta!
 
No comando das peças
Que as deusas representam,
A odiosa Décima vi
No comando do exército das trevas;
Na figura do Rei do trono de ébano a vi!
 
No alto da Torre direita,
Para visão privilegiada e ampla ter,
A Fiandeira vi a fiar cânhamo
E puxá-lo até a Décima,
A fim de tecerem
Sua trama mortal qual aranhas,
Para me aprisionarem
Em seus abjetos estratagemas!
 
A grande partida de Xadrez
Da minha vida assim começou;
Assim iniciei os jogos de guerra!
 
 
CAPÍTULO II – A Batalha (Guerra Santa).
 
Estou cansado!
A partida se estende
Por um tempo demasiado longo
E começo a sentir
Os efeitos das baixas!
 
É chegado o momento
Da batalha decisiva
Que determinará os rumos da guerra,
Então aguardo sereno
A vez do adversário!
 
Move a Décima com fúria
Suas peças, lançando
Contra mim as três Fúrias
Cavalgando um par de negros corcéis
Comandados por gritos horrendos
Da Torre esquerda,
Mas eram peças fracas no jogo,
Pois contra mim nada tinham;
Nem mesmo a Megera,
No alto da Torre
– não temo dizer seus nomes;
não usarei eufemismos
para as “Benevolentes”
ou para as “Deusas Veneradas”!
 
Ainda assim me encontrava
Em grande desvantagem,
Pois uma peça faltava:
A Dama, a minha Rainha,
Que se colocou de propósito em posição
De covarde captura logo no início,
Para o jogo abandonar
– considero-a uma peça tombada,
e quando a coroa tirou
e do real vestido se despiu,
vi que nunca foi alva,
e suas trevas temi!
 
A batalha segue
E uma a uma tombam minhas peças,
Mas em meio à batalha
Uma sobressai:
Um Peão com uma bela armadura de prata,
Sabiamente ocultando
Sua feminina identidade!
 
Embora sempre as Parcas
A vissem em destaque,
Liderando tropas e vencendo
Em várias frentes de batalha,
Nunca lhe deram muita importância
Por ser apenas um soldado, um Peão
– usarei essa arrogância a meu favor!
 
Quando se apresentou a mim
Essa misteriosa mulher
Como um Paladino cristão,
Oferecendo sua espada
E me jurando fidelidade e devoção,
Pediu que a ninguém
Fosse revelada sua identidade,
E o elmo de penacho negro
Diante de nós jamais foi tirado!
 
Porém, perceberam todos
Que de uma donzela
De origem nobre se tratava
E muito a respeitaram!
 
Pela sua religiosidade
E bravura em combate,
A misteriosa guerreira conquistou
Grande respeito e admiração
Pois em muito se assemelhava
À Santa Joana d’Arc
– até mesmo em sua história (bendita seja)!
 
Por isso passou a ser conhecida
Entre os soldados como Donzela de Orleans,
E como ocultava o nome,
Carinhosamente a ela se dirigiam como Joana!
 
Antes de cada batalha entoavam
Motivados a composição do Poeta
Do Reino inspirada em seus feitos:
O Cântico à Donzela de Orleans!
 
 
CAPÍTULO III – Cântico à Donzela de Orleans.
 
“Quão pura e nobre
É a Donzela de Orleans!
O perfume de sua pele
Lembra a doçura do jasmim!
 
O perfume frutado de sua voz
Lembra as maçãs do Jardim
Das Hespérides e encanta
A todos quando canta!
 
Seu toque deixa um perfume floral
De rosas para o funeral
Dos que sentem a fria prata
De sua pesada manopla!
 
Dizem que sua armadura de prata
Foi ganha em disputa com Diana,
E seus olhos pela viseira do elmo
São penetrantes como as flechas
De prata da casta Deusa da Lua!
 
Dizem que roubou
Do malicioso Cupido
Uma flecha de afiada
Ponteira dourada
Em suas aventuras
Como grande Paladino
Do Deus único,
E a guarda em sua aljava
De couro do Leão de Neméia,
Junto à flecha com sangue de Hidra
– tem a força e a coragem
da Rainha Hipólita
para enfrentar Hércules!
 
Dizem os clérigos que Deus
Fala em seu imaculado seio
Com voz de trovão
E a queima por dentro,
Incendeia-a, Inflama-a,
Enquanto ela clama
Por justiça e amor!
 
Quão santa e nobre,
Valente e intrépida
É a Manopla de Deus,
Nossa poderosa
Donzela de Orleans
– livra-nos do mal,
virgem poderosa!”
 
 
CAPÍTULO IV – A Prova Máxima (A Saga do Peão da Manopla de Prata).
 
Da guerreira a bravura
Será posta à prova!
Vendo o completo caos
Entre os seus companheiros,
Levanta a alva donzela do chão
O estandarte ensanguentado
E lidera o alvacento exército
Com bravura e fúria,
Espantando as Fúrias
E o pavor levando
Aos corações petrificados
Dos tenebrosos Peões
Que assistem a cólera
Da Manopla de Deus!
 
O som intenso de aço
Golpeando aço ressoa
Lembrando o tilintar dos talheres
No macabro banquete da Morte
E seus repulsivos comensais,
Mas Joana só consegue se lembrar
Do martelo que golpeia incansável,
Disciplinada e determinadamente
O aço preso sobre a bigorna com o tenaz,
Provando a tenacidade
Do seu nobre exército;
E suas faíscas incendeiam
O campo de batalha,
Inflamando o coração da donzela,
Que luta com mais vontade
Sentindo o cheiro de ferrugem
No ar tenso e carregado,
Convidando-a para o banquete;
E ela retribui o gentil convite
Levando ao inimigo sua espada
Para provarem o gosto do aço;
E enquanto força seus ventres
A engolirem sua poderosa lâmina,
Pergunta aos infelizes Peões
Se está ou não bem temperada!
 
A oportunidade aproveito
E meus Cavalos movimento
– um com chifre e outro com asas –
Em L (Luta, Liberdade) pelos flancos,
Enquanto o Clero posiciono a meu favor
Com orações e penitências,
A fim de libertar o caminho
Para a heroica Donzela de Orleans,
Já próxima às sólidas muralhas
Do imponente castelo negro!
 
Um Peão de armadura negra
Salta duas casas para bloquear a passagem,
Mas a donzela continua o avanço en passant
E transpõe as negras muralhas,
Invadindo a fortificação pagã!
 
Dessa vez se espantam as Parcas
Com a súbita virada
E com a audácia da guerreira,
Que perigosamente
Se aproxima da primeira casa!
 
Para aquele ponto crítico
Movimentam as irmãs
Todo o seu contingente,
Mas das seteiras de minhas Torres
Posicionadas estrategicamente,
Saraivadas de flechas às peças cobrem,
Ocultando o Sol e as mergulhando em trevas,
Impossibilitando qualquer defesa!
 
Veem atônitas as “Malevolentes”
As prateadas botas da donzela
Pisarem a primeira casa do castelo
E sua manopla de prata bater
Com violência no Relógio de Xadrez,
Destroçando-o por completo!
 
Todo o jogo para:
O tempo para
E sua contagem se detém!  
 
Larga a donzela sua espada
Que impacta ruidosamente o mármore:
Toda a atenção quer para si e todo
O tempo quer para a coroação tão almejada!
 
Para ela sorri maravilhada
A Fortuna com a reviravolta
E lépida para os confins do mundo foge,
Onde nascem os sonhos
E onde a todos leva a fria Morte!
 
 
CAPÍTULO V – A Coroação (O Segredo da Forja).
 
O Peão prateado atingiu
A primeira casa do adversário,
E sem acreditar,
Vejo o que pode fazer uma mulher
Pelo seu Rei e pelo seu Deus
Quando tem um coração puro,
Cheio de amor e devoção!
 
Sua Cruzada épica para me libertar
Dos deuses pagãos e ocupar
Meu coração foi longa
E envolveu penitências,
Sacrifícios e uma peregrinação
Como Paladino que a prepararam
Para essa batalha,
Para esse dia,
Para esse momento;
A prova máxima
Que traria o poder de Deus
Ao seu grande coração valente!
 
Essa guerreira valorosa
De estandarte vermelho sangue,
Por todos os testes passou
Com o coração puro,
Pois sua vontade de aço
Não vem da forja de Vulcano
E tampouco sua coragem
Vem da fúria belicosa
E irracional de Marte,
Ou mesmo da astúcia
Ardilosa de Minerva;
Essa legítima heroína
Foi forjada nas chamas
Ardentes da fé e do amor,
E colocada à prova no calor
Intenso do campo de batalha
– no calor do sangue
que tempera o frio aço!
 
Não sei qual será o resultado do jogo,
Não sei se as Parcas vencerão
E ao Tártaro me lançarão
Em eterno castigo,
Mas as minhas esperanças
Guardo nas manoplas de prata!
 
É chegada a hora
De a todos revelar
A identidade desse Peão,
Dessa grande guerreira;
Meu grande trunfo,
A base de toda a minha estratégia,
Um segredo apenas nosso,
Escondido até de minhas tropas;
Minha jogada de mestre!
 
Peço, então,
Para que o Peão
Retire seu elmo
E diga a todos seu nome.
 
Sua abundante cabeleira
Cai madeixa por madeixa
Enquanto ergue o elmo,
Repousando graciosamente
Sobre a prata como um véu negro,
Prenunciando morte e trevas
Para o inimigo de modo que até a Morta
Sentiu admiração e terror!
 
O Sol cintilava em seus rubros
E delicados lábios orvalhados,
E seus olhos negros como a noite
Mais profunda encheram de mistério
Seu sorriso sedutor de satisfação,
À espera da coroa que douraria
Suas negras e longas madeixas,
Dando-lhe o poder para vencer o jogo
E conquistar meu coração!
 
O segredo por fim é revelado!
A donzela até então conhecida
Entre as tropas como Joana,
Sopra seu verdadeiro nome
Com um vento cálido e floral:
 
– Meu nome é Amarílis,
Descendente da linhagem
Da Imperatriz das Flores,
Do antigo Império das Gálias,
E venho a mando de Deus
E em nome da Santa Madre Igreja
Para defender o Rei e a fé cristã,
Libertando o Reino
Dos deuses e cultos pagãos;
A Fortuna e as Parcas serão banidas
E sentirão a ira do Senhor!
 
Paralisadas de terror estavam as irmãs
E seus olhos se arregalaram
Ao repararem nas joias que acariciavam
O aveludado rosto da guerreira:
Um par de grandes brincos de ouro,
Cada um com um grande
E rutilante diamante escarlate
Lapidado octaedricamente!
 
Ao reconhecerem o símbolo
Da egrégia Corte francesa
Do grande naipe de Ouros,
Perceberam seu grave erro!
 
Pensavam em como puderam
Ser tão descuidadas;
Em como não perceberam
Que essa guerreira
Era a mesma Dama de Ouros
Que sempre descartavam de minha vida
Embaralhada em seus jogos de cartas!
 
Foi então que perceberam
Que um poder maior as cegou
E protegeu a identidade da bela Dama:
O poder do Deus cristão!
 
Encantado com tudo,
Nem passou pela minha mente ou coração
Trazer de volta a antiga Rainha desertora
– mostrou-se ilegítima, uma usurpadora!
 
Um Peão, uma guerreira
De armadura de prata
Deverá ser coroada
Em cerimônia solene
– é a Dama, a Rainha
que preciso para decidir
esse jogo entre o Deus cristão
e os deuses antigos,
a luta entre a fé cristã e o paganismo!
 
Assim sendo,
Não resgato a antiga Rainha
– rejeito a Dama de Copas;
Beladona que me entorpeceu
e que depois me rejeitou –
E entrego à Amarílis
O longo vestido púrpuro
E a áurea coroa cravejada,
Que ao cingir sua misteriosa cabeleira,
Enche o castelo com uma luz cegante
E envolvente do céu refletida:
Volta a correr o tempo!
 
 
CAPÍTULO VI – A Queda (A Torre Fulminada).
 
Investida do poder divino
Que lhe foi conferido pela fé,
Lealdade, bravura, devoção
E amor provados em batalha,
A recém-coroada Rainha prepara
Seu próximo movimento,
Enquanto reúnem as Parcas
Peças para a defesa desesperada!
 
Clamam por Minerva,
Mas ignoram que a deusa
Aparecendo em sonhos me ajudou,
Aconselhando que aceitasse
A ajuda do Deus cristão
Na forma de uma guerreira
Vinda das terras do Norte!
 
Clamam por Marte,
Mas até mesmo Júpiter
Teme o Deus de Amarílis,
E nenhum dos imortais
Quer se envolver na insana
Guerra iniciada pela Décima
Contra um mortal insignificante
– deusa vingativa, enlouquecida
pela cólera injusta e descabida!
 
É então que a nova Dama
Corre em direção ao trevoso Rei
Com o arco em punho
E o vestido esvoaçando
Junto à suas negras melenas,
E a dois passos dele
– dela, da Décima –
Tira uma flecha da aljava
E ameaça disparar,
Dizendo com uma voz poderosa
Que mais se assemelha
À vingativa voz de Juno:
– Xeque-Mate!
 
Não havia defesa,
Pois a Nona e a Morta
Pela irmã não bloqueariam em sacrifício
A flecha com o peito;
Tampouco as Fúrias ou os peões
O fariam por mais sagradas
Que fossem as regras do jogo!
 
Décima está só,
E tomba com o peso
Da Manopla de Deus
– a Fortuna e o Destino
foram finalmente derrotados!
 
Com o Rei inimigo tombado,
Respiro alegre e aliviado,
Mas de repente me assusto
Ao ver a Amarílis o arco virar
E para o meu peito apontar
A flecha de forma ardilosa!
 
Com um sorriso malicioso
Pisca para mim e dispara
A flecha do Cupido ao dizer:
– XEQUE-MATE!
 
FIM
 
 
EPÍLOGO – Nota Sobre os Resultados do Jogo (fim de jogo, fim da guerra e fim do reinado das trevas; o Paganismo sucumbe ante o poder do Paladino da Santa Madre Igreja).
 
Meus despojos de guerra
São os altos cacifes de fichas
Que em poder das deusas se encontravam
– troquei-os e recuperei meu quinhão na vida –
E o poder sobre meu destino,
Sobre minha sorte malfadada!
 
Esses despojos
A fiel e devota Rainha ofertará
A Deus para que sejam
Sabiamente administrados
Em minha nova vida!
 
Quão sábia é a Rainha Amarílis!
Entre os muitos dons
Do Espírito Santo que recebeu,
Estão a inteligência e a sabedoria,
Então confio a ela minha vida
– deixarei que seus rumos decida!
 
Antes de começar o grande jogo,
Antes de iniciar a Guerra Santa,
Dependia dos poucos conselhos
Sobre estratégia militar
Que podia minha divina protetora oferecer
Sem o risco de muito se envolver.
Eu não cultuava a grande Minerva,
Apenas éramos bons amigos,
Mas chegou a hora de seguirmos
Por caminhos distintos,
Pois definitivamente me pus
Contra a linhagem dos deuses
Para servir ao Deus único,
E Ele não aceita outros deuses
– é um Deus ciumento!
 
Dependerei agora dos dons
Do Espírito Santo de Deus,
E durante a sagrada partida de Xadrez
Os recebi na forma de inteligência e sabedoria,
As quais utilizei da melhor forma que pude
Na estratégia militar,
Mas nunca se compararam
Aos dons de Amarílis,
A grande estrategista militar
Por trás da brilhante vitória!
 
Ainda me lembro da Dama
Naquele momento mágico:
O tremeluzir dos enigmáticos olhos
Em seu malicioso sorriso
De euforia que antecedia
Uma grande jogada;
Sua doce e suave voz
Sentenciando meu coração
Enquanto seu inteligente ardil
– a flecha de um deus esquecido,
seu último movimento,
seu último ato pagão,
sua grande jogada –
Atravessava meu peito
E desaparecia magicamente
Inflamando seu interior!
 
Nos tempos de Joana d’Arc,
Queimada teria sido a nova Rainha,
Mas a Igreja Católica
Tem feito os deuses pagãos
Provarem de suas próprias poções
Combatendo magia com magia,
Combatendo os pagãos
Com sua própria feitiçaria
– podemos vê-la nos grimórios –
Ou com a mesma arte mágica
Usada pelo libertador Moisés
Para combater o Faraó!
 
Para isso treina e envia
Seus melhores Paladinos,
E Amarílis é um dos melhores
Que deixam suas pegadas
Solitárias em solo pagão,
Caçando criaturas míticas
De deuses esquecidos!
 
Com sangue celta e romano,
Essa temida guerreira
Tem ouvido a voz de Deus
– o deus que sempre fala
em seu coração se chama Amor –
E defendido a fé católica
Com tamanha fúria
Que nos quinze anos de peregrinação
Conquistou grande fama,
Tornando-se uma lenda,
Uma heroína de míticas proporções!
 
Sua história mistura fé e mito;
Sua profunda fidelidade
E devoção a Deus e a mim,
Tornaram-na a peça central
Do meu jogo de estratégia,
Do meu jogo da vida!
 
Em uma jogada inteligente
Aceitei seus serviços,
Sabendo por Minerva
– foi seu último conselho –
Que ela poderia se tornar
O grande General
Que à vitória me conduziria,
Mas não esperava que se tornasse
A Dama do jogo, minha Rainha!
 
Eu sequer sabia se ela conseguiria provar
Seu valor em batalha, e essa era a condição
Para que o poder de Deus habitasse seu coração
E ela pudesse servir como o instrumento
De sua cólera contra a Fortuna e as Parcas!
 
Quando vi seu desempenho
Formidável em campo,
Senti assombro,
Admiração e respeito
Como todos os outros,
Mas quando a vi
Nas últimas fronteiras
Do território inimigo,
Pisando imponente
A primeira casa
Do negro castelo,
Algo diferente
Despertou em meu peito,
E senti alguns cristais de gelo do coração
Se romperem e precipitarem
Como salgado granizo,
Como lágrimas em neve cristalizadas
– pranto congelado!
 
Quando senti a flecha
Do Cupido trespassar-lhe,
Senti a débil chama que ali nascia
Aumentar rapidamente
Como em um grande incêndio,
Derretendo a crosta de gelo
Que envolvia meu coração
E gelava meu sofrido peito;
Senti o degelo transbordar
E correr em rios pela face
– início do amor verdadeiro!
 
Ela se tornou a Rainha da minha vida,
Merecedora de um título não hereditário,
Mas legitimado pelas virtudes da alma
E pela nobreza de seu grande coração,
Conquistando o meu e o ocupando
– se um troféu de jogo ainda fosse,
ela o teria ganho, pois ganhou o jogo
em que as deusas tinham
convertido minha vida!
 
Como Cruzado termino
Minha jornada para resgatar
A Terra Santa dos pagãos,
Pois a Santa Amarílis
Ocupou meu território
Para sua libertação e santificação,
Pondo-o sob seu reinado
E o consagrando ao Senhor!
 
Termino a busca pelo Santo Graal,
Pois agora bebo a felicidade e o amor
No sagrado cálice de ouro de Amarílis,
Cravejado de rubros diamantes!
 
Nesse cálice ergo um brinde à Victoria,
E a deusa, ao ver o amor vencer o jogo da vida,
Sorri esfuziante para mim, ergue sua taça e diz:
 
– UM BRINDE À VITÓRIA DO AMOR!
 
15/05/2013
 
 
Montagem: edições e recortes de Papéis de Parede e cliparts da internet sobre a pintura “Ajedrez en el campo”, da artista espanhola Mariana Ferraro.


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Enviado por Jair F da Silva Jr em 19/05/2013
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